quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Em terra de cego...


_ Meus senhoras e minhas senhoras, um minuto de sua atenção. Não estou aqui pra roubar. Só quero trabalhar. Minha mãe está doente, o meu pai está doente, minha irmã está doente e a essas horas eu também já devo estar doente...
Todo mundo já deve ter passado por situação parecida. Tirando o mau gosto da brincadeira, é comum vermos, nos ônibus cidade afora, pessoas vendendo toda a sorte de objetos e produtos: paçoca, jujuba, mariola, canetas Manassés, cartões, pirulitos, balas, queijo, algodão doce, picolé e, pasmem, até passaporte para o Reino de Deus.
Olhando com um pouco mais de atenção para essa situação percebi três coisas que merecem destaque. Uma delas foi que o povo anda sofrendo os males de um desenvolvimento que muitos não conseguem acompanhar e, por isso, caem na informalidade, ou mesmo no crime. Outra é que muitos vendedores não sabem como atrair a atenção e o envolvimento da clientela. Uma terceira observação foi que, definitivamente, a beleza, ou algum outro fator estimulador pode fazer a diferença entre a adesão ou não do público.
Vamos aos fatos. Alguns exemplos vão ilustrar o que digo.
1)Vendedor de balas. Aproximadamente trinta e cinco anos.
Atuação preferencial no trecho Vitória Apart Hospital (Serra, ES) – Praça de Goiabeiras (Vitória – ES).
Esse rapaz afirma que precisa tomar uma injeção de um medicamento caro, toda segunda-feira – isso mesmo; toda segunda, ele diz que precisa fazer uso do medicamento às segundas-feiras; vende doces; normalmente, sem muito sucesso. Me pergunto o que acontece aí. Existe um sistema de saúde que, minimamente, funciona. O SUS não oferta esse medicamento? Não sei qual... Mas o rapaz também não ajuda. Faz um apelo tão exagerado que não comove ninguém. Antes incomoda.
2) Cego. Meia idade.
Acompanhado por um amigo meio manco.
Atuação eventual na Av. N. S. da Penha (Vitória,ES).
A justificativa dada nesse caso foi a de que o homem era cego e, portanto, inválido. Nesse evento, semana passada, acho que só eu tirei uns quinze centavos do bolso e ofereci ao homem. Ele desceu reclamando e dizendo que ninguém tinha nem umas moedinhas pra dar... Só pra lembrar: era cego.
Essa semana, não tive como não lembrar dos casos anteriores. Estava num ônibus e, de repente entra um menino de aproximadamente treze anos, moreno, com roupas simples mas limpas, cabelos penteados, dentes brancos e carregando na cara os olhos mais intrigantemente verdes que eu já havia visto, ou que eu nunca havia visto. Estava vendendo jujuba. Num cartãozinho azul, plastificado um texto pequeno pedia ajuda a alguém de bom coração e deixava uma benção de Deus.
O menino passava pelo corredor do ônibus pedindo licença e agradecendo. Em pouco tempo, já estava com a caixinha de jujubas vazia e as mãozinhas cheias de dinheiro. Havia quem desse o dinheiro e nem ficasse com as balas.
Ele não precisou falar nada, pensei. Tá vendendo com o olho.
Em meio à admiração geral, por causa do olho do menino, comprei a jujuba também.
Fabio Chagas

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

"É Tropa de Elite?" - parte II

Depois de um certo tempo as coisas vão entrando no eixo, ou desandam de vez. Mas parece que, no caso da minha experiência lá em São Pedro, a tendência é continuar melhorando... as crianças já mostram ter uma certa confiança em mim. Acho que é pela minha insistência.

Outro dia percebi que a molecada estava demorando a aparecer. Sai procurando pela escola e achei minhas crianças na oficina de cartão. No melhor sentido da expressão, entrei sem pedir licença. Me joguei no meio dos cartões e comecei a falar sobre os filmes que pretendia exibir. Aos poucos eles foram aderindo e fomos para a sala de cinema.

Exibi dois curtas e começamos a discutir sobre liberdade, responsabilidade, companheirismo e respeito mútuo - esse último assunto eu insisto em puxar todo encontro, pela característica do relacionamento das crianças, às vezes ofensivo.

Bom, fomos conversando sobre os temas propostos. A certa altura um menino me pergunta:

- E a múmia?

Que múmia? Não tinha múmia em nehum dos filmes... Foi aquele rebuliço. Todos riram e o menino ficou sem graça. Procurei saber de que múmia ele estava falando e ele respondeu que havia se lembrado, naquele momento, de um filme a que havia assistido... Parei tudo.

Comecei pela múmia... As múmias, blá, blá, blá... os faraós... o Egito... as maldições... aquela velha história.

Silêncio total. Quando acabei de falar sobre as múmias, começaram a perguntar sobre um monte de coisas e a oficina de cinema na escola/direitos humanos virou uma conversa sobre conhecimentos gerais.

Ah! Ainda não falei pra eles, mas não vai dar pra exibir Tropa de Elite lá.

Fabio Chagas

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"É Tropa de Elite?" - parte I

Mês passado comecei minha oficina Cinema na Escola, pelo Programa Escola Aberta, da SECAD (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade), do MEC. A oficina acontece aos sábados numa escola na região de São Pedro, em Vitória. É uma iniciativa que tem por finalidade tratar de temas referentes a Direitos Humanos. Para isso essa oficina se utiliza do audiovisual.

Bom, meu primeiro contato com a escola foi um desastre. Chovia diluvialmente. Cheguei às oito da manhã e escola só abriu às nove e meia. A escola não disponibilizou nem TV nem DVD, não divulgou a oficina, a coordenadora que me receberia sequer sabia da minha existência e, conclusão, eu voltei pra casa frustrado.

Pensei em não voltar mais. Mas ia deixar tudo de lado? E o material que fiquei dias preparando?...

No sábado seguinte lá estava eu de novo. Cheguei às nove. Vi que havia um cartaz divulgando a oficina. A coordenadora me recebeu e me levou até uma sala com TV e DVD. Estamos indo bem, pensei.

Mal entrei, um batalhão de crianças barulhentas passou me atropelando e se amontoou na frente da TV gritando "É Tropa de Elite?"... Pensei cá com meus botões: de onde veio a idéia de que seria exibido tal filme?... Talvez seja o que eles têm, em suas pequenas (infantis) cabeças, de mais representativo do cinema... Havia na sala umas vinte e cinco crianças. Quando eu disse que não iria exibir Tropa de Elite, uns dez pares de olhos melancólicos resistiram à tentação de vazar dali. Terminei o encontro com oito crianças...

Continua...

Fabio Chagas