_ Meus senhoras e minhas senhoras, um minuto de sua atenção. Não estou aqui pra roubar. Só quero trabalhar. Minha mãe está doente, o meu pai está doente, minha irmã está doente e a essas horas eu também já devo estar doente...
Todo mundo já deve ter passado por situação parecida. Tirando o mau gosto da brincadeira, é comum vermos, nos ônibus cidade afora, pessoas vendendo toda a sorte de objetos e produtos: paçoca, jujuba, mariola, canetas Manassés, cartões, pirulitos, balas, queijo, algodão doce, picolé e, pasmem, até passaporte para o Reino de Deus.
Todo mundo já deve ter passado por situação parecida. Tirando o mau gosto da brincadeira, é comum vermos, nos ônibus cidade afora, pessoas vendendo toda a sorte de objetos e produtos: paçoca, jujuba, mariola, canetas Manassés, cartões, pirulitos, balas, queijo, algodão doce, picolé e, pasmem, até passaporte para o Reino de Deus.
Olhando com um pouco mais de atenção para essa situação percebi três coisas que merecem destaque. Uma delas foi que o povo anda sofrendo os males de um desenvolvimento que muitos não conseguem acompanhar e, por isso, caem na informalidade, ou mesmo no crime. Outra é que muitos vendedores não sabem como atrair a atenção e o envolvimento da clientela. Uma terceira observação foi que, definitivamente, a beleza, ou algum outro fator estimulador pode fazer a diferença entre a adesão ou não do público.
Vamos aos fatos. Alguns exemplos vão ilustrar o que digo.
1)Vendedor de balas. Aproximadamente trinta e cinco anos.
Atuação preferencial no trecho Vitória Apart Hospital (Serra, ES) – Praça de Goiabeiras (Vitória – ES).
Atuação preferencial no trecho Vitória Apart Hospital (Serra, ES) – Praça de Goiabeiras (Vitória – ES).
Esse rapaz afirma que precisa tomar uma injeção de um medicamento caro, toda segunda-feira – isso mesmo; toda segunda, ele diz que precisa fazer uso do medicamento às segundas-feiras; vende doces; normalmente, sem muito sucesso. Me pergunto o que acontece aí. Existe um sistema de saúde que, minimamente, funciona. O SUS não oferta esse medicamento? Não sei qual... Mas o rapaz também não ajuda. Faz um apelo tão exagerado que não comove ninguém. Antes incomoda.
2) Cego. Meia idade.
Acompanhado por um amigo meio manco.
Atuação eventual na Av. N. S. da Penha (Vitória,ES).
Acompanhado por um amigo meio manco.
Atuação eventual na Av. N. S. da Penha (Vitória,ES).
A justificativa dada nesse caso foi a de que o homem era cego e, portanto, inválido. Nesse evento, semana passada, acho que só eu tirei uns quinze centavos do bolso e ofereci ao homem. Ele desceu reclamando e dizendo que ninguém tinha nem umas moedinhas pra dar... Só pra lembrar: era cego.
Essa semana, não tive como não lembrar dos casos anteriores. Estava num ônibus e, de repente entra um menino de aproximadamente treze anos, moreno, com roupas simples mas limpas, cabelos penteados, dentes brancos e carregando na cara os olhos mais intrigantemente verdes que eu já havia visto, ou que eu nunca havia visto. Estava vendendo jujuba. Num cartãozinho azul, plastificado um texto pequeno pedia ajuda a alguém de bom coração e deixava uma benção de Deus.
O menino passava pelo corredor do ônibus pedindo licença e agradecendo. Em pouco tempo, já estava com a caixinha de jujubas vazia e as mãozinhas cheias de dinheiro. Havia quem desse o dinheiro e nem ficasse com as balas.
Ele não precisou falar nada, pensei. Tá vendendo com o olho.
Em meio à admiração geral, por causa do olho do menino, comprei a jujuba também.
Fabio Chagas