quarta-feira, 26 de março de 2008

Sexo Frágil - parte II

Pois é,

Mudando um pouco o foco das coisas, além da história da morte dos bebês do sexo masculino, vamos pensar sobre as responsabilidades ou proibições sociais dos homens...

1 - Homem não pode chorar;
2 - Homem virgem é um bicho suspeito;
3 - Homem tem que pagar a conta;
4 - Homem deve sempre abrir a porta do carro para a mulher;
5 - Homem não lava, não passa, não varre e não cozinha;

Essas são apenas algumas das obrigações que pesam sobre nossos ombros atléticos (ou atláticos?). É claro que muitas delas são frutos de uma cultura patriarcal machista que se mantém desde tempos remotos. Nesse caso, homens de todos os tempos contruíram verdadeiros telhados de vidro, sobre os quais são arremessadas pesadas pedras.

O outro lado dessa questão é o que a natureza impõe (como a morte dos bebês):

6 - Como poderia o homem fingir um orgasmo?
7 - E como fingir uma ereção?

Bom, quanto à ereção, pelo menos, já se pode contar com medicamentos como o viagra, que amanhã, 27/03 completa dez anos...

Fabio Chagas

segunda-feira, 24 de março de 2008

Sexo Frágil - parte I

Sempre se falou que a mulher era o sexo frágil. Nunca acreditei muito nessa afirmação.

É claro que existem diferenças entre nós e elas. Por exemplo, excetuando os casos que fogem do padrão, temos mais massa muscular e mais força que as mulheres; alguns estudos dão conta de que temos mais coordenação motora que elas; produzimos milhões de células reprodutoras a vida inteira enquanto elas já nascem com uma certa quantidade dessas células e vão menstruando ou engravidando até que acabam; e por aí vai.

Mas quando estamos deixando de ser meninos e meninas, quando estamos virando gente grande, tem aquela fase das transformações que pra nós, homens, é uma coisa terrível. Falamos fino, falamos grosso, soltando uns sons esganiçados de vez em quando... O corpo cresce daqui e dali... parece que às vezes os braços são maiores que o resto do corpo, outras vezes parece que somos só pernas: um bicho totalmente desengonçado.


As meninas não. Começam a ficar mais redondinhas, cheias de curvas, vão ficando mais vaidosas, aí aprender a se depilar, fazer as unhas, o cabelo, e vão ficando lindas. E ainda tem a tal da maquiagem que ajuda a esconder uma e outra coisinha. Parece que está tudo a favor delas. E talvez esteja mesmo.

Descobriram recentemente que nós, os homens, morremos mais que as mulheres. Não é que morremos mais vezes, é que o índice de mortalidade entre os bebês do sexo masculino é maior que entre os de sexo feminimo.

Ou seja, não bastassem todas as responsabilidades que a vida nos impõe, ainda manda de bônus o direito (?) de morrer mais que as mulheres.

Continua...

Fabio Chagas

segunda-feira, 17 de março de 2008

Fundão em Leituração

Há pouco tempo participei de uma oficina de Leituração, em que praticávamos três modalidades de leitura: a sensorial, a emocional e a racional, passíveis de serem aplicadas a qualquer coisa (textos, músicas, pinturas, pessoas, lugares, instituições).

Com a leitura sensorial lemos o que os sentidos captam; cores, formas, texturas, sons, gostos, cheiros... a emocional nos leva à análise da nossa relação com o que está sendo lido e a leitura racional analisa a função pragmática da coisa lida.


Me propus a ler minha cidade. E, fora a característica extremamente racional de minha leitura, às vezes até me apresento sensorial e emocional, sem definir limites muito claros entre uma instância e outra. Mas a consideração mais importante a ser feita é a de que talvez haja um quê de equívoco na minha análise, já que hoje a cidade de Fundão - ES está distante de mim, e eu dela, apesar de continuar morando lá. Também pode ser que o distanciamento me permita alcançar um grau satisfatório de imparcialidade...

Honestamente acredito que não... Mas vamos lá.

Fundão é um lugar pequeno, com todas ou muitas das características de uma cidade tipicamente interiorana. Às vezes tem-se a impressão de que, pelo fato de ser cortada pela rodovia e pela ferrovia, a cidade é bastante movimentada. Na verdade, não passa de uma impressão. Tempos atrás, havia uma certa movimentação cultural e mesmo um dinamismo político. Hoje, no entanto, já não se sente esses ares. E a sensação de inércia se estende ainda pela economia, turismo, educação, saúde, entre outras áreas que compõem o arcabouço social do município.

As coisas ficam mais sérias se repararmos que essas características da cidade acabam se infiltrando na constituição e na formação, ou formatação, dos cidadãos. A maioria deles se permite viver apenas o que o lugar oferece, dando continuidade à inércia. Vê-se, constantemente, pessoas com grande potencial, que se perdem no sem rumo profundo, proporcionado pela realidade local. Tal desorientação, mais que nociva, é cruel, já que o contexto não apenas nega, mas tira dessas pessoas a oportunidade e a vontade de pensar e agir em favor de uma mudança pessoal e social.

Por outro lado, quase que irracionalmente, a população e mesmo alguns visitantes (que são diferentes dos turistas) encontram o afago, próprio das pequenas comunidades, com seus altos níveis de solidariedade e comprometimento com o outro; tanto que por vezes decorrem daí as intrigas, as fofocas e as conversas atravessadas indesejáveis. Em outros termos, o povo ama a cidade e a digere com todas as suas mazelas. Talvez por ignorância, pois é sabido que o esclarecimento traz consigo certos desconsertos e inquietações.

Certo mesmo é que uma cidade parada no tempo, sem promover o desenvolvimento do intelecto e das humanindades de seus cidadãos vai aos poucos construindo um labirinto em que o povo se perde e os governantes não menos. E desse jeito, como governar bem uma cidade com tanta diversidade humana e geográfica?; como atender às necessidades das três regiões - sede, Timbuí e Praia Grande - que
a compõem?; ... uma cidade que tem mar, tem montanha, fábricas (poucas) e cafezais; ... uma cidade de artistas, pobres famintos e intelectuais; Difícil... Muito difícil. Mas o caminho já está aberto. A gente chega lá.

Fabio Chagas




terça-feira, 4 de março de 2008

Precisamos de alimentos

Na última postagem, citei rapidamente a viagem que fiz a Porto Seguro - BA. Eu e minha noiva saímos de Fundão - ES na manhã da quarta-feira de cinzas, com um casal de amigos. Paramos na entrada para Conceição da Barra para nos juntarmos a um outro casal de amigos, que havia passado o carnaval lá. Seguimos.

Logo após passarmos por Teixeira de Freitas, já na Bahia, percebi que havia uma intensa movimentação de crianças às margens da rodovia - curiosamente, havia mais crianças no sentido contrário ao que seguíamos. Olhei mais atentamente e percebi que elas ficavam com as mãozinhas estendidas, esperando que alguém lhes atirasse uma moedinha qualquer.

O choro compulsivo de uma daquelas crianças ficou como que fixado na memória. É como se houvesse em mim uma tela vazia e, de repente, aquela imagem se cristalizasse, ou se estampasse (melhor) em cores de dor e angústia. A pele marrom da criança, com uma terra avermelhada ao fundo, permitindo apenas que, aqui ou ali, um e outro arbusto mais cinza que verde, meio sapecados pelo sol se sustentasse o suficiente para fazer um pouco de sombra para aquele semi-ser à beira da estrada. Parece exagero, mas imagine ou tente achar dignidade naquela pessoa...

Por vários quilômetros fiquei em silêncio. Triste. Tentei fotografar, filmar, mas pensei que seria até desumano. Eu não parei, não joguei uma moeda, apenas diminui a velocidade. Ademais tudo aquilo já havia sido registrado em mim.

Além das crianças, havia velhos também. Às vezes em pé, outras vezes sentados sob pequenas cabanas. Ao lado, não havia mais do que a fome e uma plaquinha na qual o carvão expressava em péssimo português a péssima condição em que viviam aquelas pessoas:
"Presizamos de alimentos".


Fabio Chagas