terça-feira, 31 de maio de 2011

Fundão, minha terra querida (verso da Marcha de Fundão, hino da cidade) - parte I

Nas últimas duas semanas, Fundão tem sido vista pelos olhos da imprensa, de maneira muito atenta. E não é para menos.

Primeiro, uma ação policial que resultou na apreensão de veículos, armas e drogas, além da prisão de várias pessoas. Isso sem falar que, no mesmo dia, um policial foi morto na frente do filho de 14 anos, durante um assalto a um posto de combustíveis. O militar fazia segurança no mesmo posto, nas horas de folga. 

Uma outra operação, desta vez envolvendo o Ministério Público (MPES) e as polícias civil e militar, teve como alvo a adminstração municipal. Cumprindo mandados de prisão, busca e apreensão, mais de 100 policiais fizeram o centro de Fundão ficar quase tão movimentado quanto nos dias de festa.

Carros, pessoas, bicicletas, motos e até carrinhos de bebê disputavam espaço no trânsito da cidade. Ruas foram interditadas, equipes de reportagem chegavam a todo momento e, aos poucos, a população ia sabendo que se tratava do maior escândalo já registrado na história do lugar: o suposto desvio de cerca de 900 mil reais, por mês, provenientes dos royalties do petróleo explorado em nosso litoral.

Metade do secretariado municipal foi preso. E sobrou até para dois vereadores e alguns funcionários do primeiro escalão. Mas não parou por aí. O prefeito e o vice podem ser afastados e outras pessoas podem ser investigadas por atos de improbidade administrativa.

Não chego a me surpreender. Também não acho que só houve coisas erradas nesta gestão.

As investigações devem continuar, os responsáveis pelo desvio de dinheiro, se houve, devem ser responsabilizados e punidos, os envolvidos em práticas ilícitas envolvendo a coisa pública devem ser igualmente cobrados por seu atos, mas não pode parar por aí.

Precisamos nos conscientizar de que o público é uma dimensão coletiva do privado. Nessa rede de interesses individuais, o organismo social público funciona como uma argamassa. Não descaracteriza as pessoas, mas enxerga todas como um grupo que, em alguma medida, possui interesses comuns. Em favor dessa unidade é que o público opera. Ou deveria.

Essa visão não vale apenas para os cidadãos que apenas usufrem dos serviços prestados pela municipalidade. Vale também, e com um peso maior, para os cidadãos que, em nome do município, prestam serviços aos demais. E recebem por este serviço. Não são voluntários. Não fazem favor.

É urgente, também, que os interessados em manter ou disputar lugares de comando, seja no poder  legislativo seja no executivo, se conscientizem muito mais. Não deveriam olhar para esse escândalo apenas pelo viés da competição político-eleitoreira, mas pelos olhos da justiça. E dizem que esta é cega. Esperamos que sim. Cega com relação aos cargos, sobrenomes, poder financeiro.

Em resumo, não se trata de fazer uma caça às bruxas, nem de promover espetáculos de enforcamento em praças públicas ou queimar vivos, em grandes fogueiras, os culpados. Devemos esperar que sejam responsabilidados os responsáveis e exemplarmente punidos por seus atos. Dentro da Lei.

Mas seria muito bom se nossos políticos não ficassem apenas apontando erros, dizendo "eu falei, eu avisei". Seria muito bom se eles não utilizassem esse evento apenas para tentar manchar a reputação dos outros. O ideal seria se utilizassem isso para pensar em suas próprias fragilidades. E partissem para o trabalho.

Continua...

Fabio Chagas

sábado, 21 de maio de 2011

Professora Amanda Gurgel

Esta semana, tive o prazer de ouvir uma das mais esclarecidas falas sobre a educação brasileira.

Em seu desabafo, durante uma audiência pública sobre o cenário da educação no Rio Grande do Norte, a professora Amanda Gurgel resume o que acontece em todo o Brasil.

Assista ao vídeo.

Nosso país, enquanto exibe o título de oitava economia do mundo, figura no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) como o 70º da lista, só ficando à frente do Cazaquistão, Equador, Rússia, Ilhas Maurício e Bósnia-Hezergóvina. Um dos indicadores que determinam o IDH é a educação.

Mas a preocupação do Brasil com a educação é mera maquiagem para agradar a organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial. Para ficar bem na foto, o governo lança campanhas como "Toda criança na escola", amarra isso ao Fome Zero, Bolsa Família e outros programas de distribuição de renda e faz de conta que a população brasileira tem acesso a educação de qualidade.

Mas veja, hoje em dia, dificilmente um aluno fica reprovado, mesmo que não tenha aprendido nada ao longo do ano. E por que não aprende? Porque faltam condições que façam com que a criança se interesse pelo estudo. Talvez não tenha uma família estruturada, passe fome em casa, sofra violências, não tenha moradia digna. Isso exige ações públicas firmes e articuladas, num contexto mais amplo.

No entanto, vamos pensar nas situações dentro da escola. Se o professor recebe um salário abaixo do piso nacional, não tem segurança, precisa trabalhar em várias escolas e em vários horários pra ter um salário um pouco melhor; se não tem material didático adequado, se as salas de aula não têm instalações decentes, se falta água, energia, ventilador, cadeira, quadro, giz e coisas do tipo, fica difícil.

Talvez tenhamos que esperar pela eleição de Cristovam Buarque...

Enquanto isso não acontece, contamos com a boa vontade de alguns profissionais da educação, gente sensível e dedicada que, ao menor sinal de interesse de um aluno, deposita toda sua esperança e se desdobra para ensinar, incentivar e apontar caminhos e opções diferentes. Mas só com boa vontade não dá.

Um bom exemplo vem do Japão que, mesmo no período feudal, antes da Restauração Meiji em 1868, já se preocupava com a educação não apenas dos senhores provinciais, mas também das outras classes sociais. Em 1872, foram fundadas escolas primárias e secundárias e, em 1886, o "Toda criança na escola" já era obrigatório, passando a ser gratuito em 1900. De lá até 1947, o ensino primário passou de três ou quatro anos para nove anos de duração e estima-se que cerca de 75% dos cidadãos que concluem o ensino médio, cursem a universidade, os cursos profissionalizantes ou outros cursos pós-secundários.

O país, depois da Segunda Guerra, quando era apenas uma pequena nação devastada, tomou medidas que o lançaram pra frente, para se tornar uma das maiores economias do planeta. No centro de seus objetivos está a formação de cidadãos conscientes e confiantes, integrantes de uma sociedade que preza pela democracia e pelos direitos humanos.

No Brasil, o que se espera  é que haja condições para tornarmos nosso ensino tão eficaz quanto o de lá. É obvio, sem nos enganarmos, pensando que questões como a intensa concorrência e a violência só acontecem por aqui. Por lá, sem dúvida, o problema também existe. Devemos olhar para fora e aprender com eles o que pode ser aplicado aqui, para resolver nossos problemas. E os problemas da educação por aqui, sem dúvida, passam pela contínua e histórica desvalorização do professor.

Fabio Chagas