domingo, 27 de março de 2011

Assalto no Mosteiro Zen Morro da Vargem - parte I

Na noite da última terça (22), um grupo fortemente armado invadiu o Mosteiro Zen de Ibiraçu, fez dois reféns e levou vário equipamentos e um automóvel. A motivação do crime seria um cofre de que nunca se ouviu falar.

Mas todos os detalhes do ocorrido já foram exaustivamente noticiados pelos jornais e programas de rádio e TV.

O que me faz escrever sobre o assunto é exatamente o que não foi falado, aquilo que os gravadores, as câmeras fotográficas e as filmadoras não registraram: o olhar das vítimas, o tremor nas mãos, o embargo na voz.

Nenhum reporter conseguiu ou procurou saber se doíam mais os cortes no corpo ou as dores na alma. Ninguém viu o que meus olhos presenciaram: um homem de 40 anos, com uma vida inteira dedicada à educação, aos prantos, questionar a validade de seu trabalho.

Ninguém ouviu o que meus ouvidos flagraram: a voz trêmula e copiosa de uma irmã desesperada a procura de informações sobre esse homem. Ninguém soube da dúvida que acortinava o olhar e fazia definhar uma mãe que questionava "Você sabe o que fizeram com o meu menino?"...

Pois é. Para as mães somos sempre crianças. E qual não teria sido a tristeza dessa mãe se, naquela semana, ganhasse de presente de aniversário (79 anos) o velório do filho mais novo.

Basicamente, me preocupam duas coisas: 1) Como ficam as vítimas, no que diz respeito ao trauma? e 2) Como a sociedade encara situações de violência?

Vamos ver se conseguimos responder a essas questões nas próximas postagens.

Fabio Chagas

sábado, 26 de março de 2011

Às mestras, com carinho - parte II

Pois bem,

Em cinco anos minha esposa não só amadureceu, mas desenvolveu uma capacidade incrível de cuidar de várias coisas ao mesmo tempo. Isso é meio louco.

Mas vamos ao que falta...

Sempre critiquei muita nossa filha mais velha por ser tão inteligente, mas tão preguiçosa. Sei que a preguiça é muito comum quando se trata de pessoas que pensam rápido e fazem conexões mentais muito facilmente. Ora, o esforço pra conseguir entender as coisas é menor e isso os deixa mais relaxados, claro.

O problema é que junto com isso tem o fato de todo mundo sempre a ter paparicado e feito acreditar que ela já era boa demais em tudo. Pronto. Pra que aprender mais? Pra que melhorar? Pra que obedecer?

É lógico. Faz sentido. É psico, mas é lógico.

Com a mais nova estamos tentando não cometer tantos erros. Espero que consigamos. E, como toda criança, ela demonstra um potencial muito grande a ser trabalhado. O que mais me impressiona é a alegria e o bom humor, já ao acordar (preciso aprender isso com ela). Sem falar da capacidade de fazer associações e da excelente memória.

É isso.

Aprender e viver melhor, ou o contrário, estão no meu roteiro. É difícil acertar sempre, mas é possível aprender sempre.

Fabio Chagas

terça-feira, 22 de março de 2011

Às mestras, com carinho.

Sem o drama da obra (To Sir, with Love) de James Clavell, ambientada na Londres da década de 1960, meu título fica pesadamente piegas. Mas isso não é um problema tão grande assim. Aliás, isso não é quase nada frente as descobertas que tenho feito ao longo da vida.

Quando era menino não entendia minha mãe. Não compreendia. Na juventude, desconhecia minha namorada, noiva e esposa. Adulto, começo a perceber a psico-lógica de minha filha mais velha e a perspicácia da mais nova. Mas vamos destrinchar tudo isso com calma...

Lembro-me de algumas surras, castigos e proibições que recebia na infância por conta de alguns comportamentos abominados por minha mãe. Se eu mentisse, apanhava. Falando a verdade, é mais provável que isso acontecesse. "Se você apanhar de alguém na rua, apanha quando chegar em casa; se bater em alguém, apanha o dobro.", dizia ela.

E aí? Como uma criança sai dessa situação? Mais tarde a ficha caiu: minha mãe queria um filho que soubesse dialogar, resolver as coisas sem partir pra porrada. E queria que eu entendesse que a verdade às vezes machuca, mas a mentira machuca e deixa cicatrizes. A dor da verdade vem junto com uma sensação leve de ter feito a coisa certa e essa leveza do ser é insuperável.

No entanto, a DOR da verdade eu conheci há uns dois ou três anos...

Chego em casa um dia e invento de cozinhar nem lembro o quê. Precisava da penela da pressão. Procurei e não encontrei. Perguntei à minha esposa:

_ Onde está a panela de pressão?

_ Joguei fora. Respondeu ela.








Sim. Um silêncio denso manteve a distância entre mim e ela.




_ Jogou fora? A panela que minha mãe deu pra gente? Perguntei.

_ Joguei. Ficou muito tempo na geladeira com uma carne dentro e a carne estragou... fiquei com nojo e joguei fora.



Sai de perto e fui me envenenar longe dela. Não podia admitir que alguém jogasse fora uma panela de pressão pelo simples fato de haver comida estragada dentro. Por que não lavar?

Alguns dias depois, numa dinâmica na faculdade acabei percebendo como eu havia sido machista. Logo eu, O Liberal, não tive a capacidade de lavar a panela que eu também havia permitido ficar tanto tempo na geladeira. Mas, vencido o terror de descobrir que eu não era tão menos machista que a maioria dos homens, passei a descobrir outras coisas que ainda não havia percebido em minha esposa.

Quando engravidamos de nossa segunda filha, estávamos num momento muito agitado de nossa vida. É claro que planejamos ter outro filho (no caso, filha), paramos com o anticoncepcional e fizemos muito sexo. Mas vivíamos nos rocks, bebíamos, minha esposa fumava cada vez mais e isso me preocupava. Eu imaginava que quando ela engravidasse não pararia com aqueles vícios.

Nas primeiras semanas da gravidez, com a confirmação, ela parou de fumar e nunca mais - nossa filha já está com um ano e três meses - fumou. Sem falar que ficou toda a gravidez e amamentação sem beber.

Sei o quanto é difícil deixar um vício. Não acreditava que ela pudesse parar e parou. E a cada dia vejo como minha esposa é forte, centrada, bem humorada e tem uma paciência absurda, sobretudo comigo.

Na próxima postagem,
A psico-lógica e a perspicácia das minhas duas meninas.

Até breve.
Fabio Chagas