sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Quem somos nós?

Outro dia assisti ao filme What bleep we know?... com aquela mania brasileira de mudar o nome dos filmes, Quem somos nós?
O filme é inquietante e há quem diga que não passa de um amontoado de loucuras. O fato é que tive que escrever algo sobre ele para uma disciplina (psicologia da personalidade; mas faço comunicação social). E deu no seguinte:

O filme Quem somos nós? traz uma questão que, se não nos tira o sono, pelo menos nos obriga a sair de nosso mundinho autista e olhar melhor ao redor; nos põe frente a uma série de questões que normalmente não deixamos pertencer nem ao universo de nossas discussões mais esclarecidas nem ao das menos valiosas.
Pela abordagem do filme, a física quântica é apresentada como a física das possibilidades. E há que se ter muita fé para acreditar que existe a possibilidade de as coisas serem múltiplas mesmo se apresentando, aparentemente, únicas. Deus, por exemplo. É único, dizem. Mas suas manifestações se dão em diversas entidades. A natureza reflete Deus - ou é Ele - e, no ímpeto de suas forças, mostra-se venerável. As energias e o acaso refletem Deus. Até o homem reflete Deus, visto que é(?) sua imagem e semelhança...
Mas onde ficam as possibilidades?
No campo da percepção isso é mais fácil de ser entendido. Ao olharmos para uma determinada coisa, nossos órgãos sensoriais captam uma imagem que é codificada, decodificada e transvalorada pelo nosso cérebro, com seu conjunto de memórias de experiências passadas. Ocorre uma ressignificação da coisa, quase sempre determinada pela massificação promovida por uma superestrutura, uma espécie de Matrix, que se faz presente em todos os setores. Nesse contexto, as coisas recebem toda uma carga de sentidos que são atribuídos pelos olhos do observador, que se projeta no objeto de observação.
Toda realidade, sob o ponto de vista do observador é, para ele uma verdade: a realidade. No entanto, esta vai além do que se percebe, ou do que se vê. Como o filme mostra, uma bola é mais vazio do que matéria e, portanto, ela também é o que não é. Assim, é questionável o que seria um ser, um eu, um self ideal. Existe um self ideal? É possível atingir esse estágio? Que relação teria com o mundo real? E o que é o mundo real? Talvez seja o que todos podem ver. Talvez seja o que só eu posso ver. Talvez seja o que nem eu nem ninguém pode ver.
Acredito que há momentos em que a (ir)realidade nos salta aos olhos, ou aos outros sentidos; sentidos mesmo que não se limitam aos cinco já ampla e vulgarmente estudados. Quando isso ocorre, abrem-se as brechas do incomum. O desigual, o anormal se manifesta. Daí para a loucura (ou genialidade?), factual ou suposta, é um pulo.

Fabio Chagas

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Dá-me de beber

"Traga-me um copo d'água
Tenho sede
E essa sede pode me matar..."
(Tenho sede - Gilberto Gil)


Já não é viável sequer cantar essa música do nosso ministro da cultura. Com todo esse problema da água mineral contaminada aqui no Espírito Santo, parece que não só a sede mas também a água "[...] pode me matar [...]".

Primeiro foi o leite, que além de todos os reais benefícios que todos já conhecemos passou também a ser ofertado nas versões desinfetante altamente corrosivo e descolorante capilar, com o princípio ativo dos compostos NaOH (soda cáustica) e H2O2 (água oxigenada), respectivamente. Fora a brincadeira, de muito mau gosto diga-se de passagem, o fato é que um dos alimentos tidos como indispensáveis na alimentação estaria sendo adulterado com o intuito de aumentar o prazo de validade - caso do leite distribuído em embalagens tipo longa vida (caixinha).

A soda cáustica, se ingerida pode causar desde irritações até perfurações na mucosa intestinal. A água oxigenada pode provocar gastrite, entre outras coisas. Mais do que uma irresponsabilidade, essa atitude de algumas cooperativas produtoras de leite configura um crime. Em face disso muitas pessoas foram presas e muitos produtos foram apreendidos.

Agora a onda é com a água. Quando todo mundo achava que água mineral era o supra-sumo da pureza a vigilância sanitária jogou um balde de água fria - livre de coliformes fecais, espero - sobre nossas cabeças. Estamos consumindo água contaminada por coliformes e por uma bactéria que pode provocar dor de barriga. Já são 12 (A Gazeta) ou 13 (A Tribuna) marcas capixabas de água mineral proibidas de serem comercializadas no estado.

Ontem, Dulce Rosa Gustavo, minha vizinha, acompanhou, bem de perto, agentes da vigilância sanitária de Fundão, quando estes recolhiam embalagens, ainda lacradas, das casas dos consumidores. Segundo ela, Luiz, o entregador de água e gás, também teria participado da operação. Ele devolvia aos clientes o valor pago pela água.

Vamos ver onde tudo isso vai dar. Com certeza, os preços vão subir. É claro. Não tem água boa aqui. Os comerciante terão que comprar fora do estado. Isso eleva o custo do produto. Conclusão: vai doer no bolso.

Só me surge agora o seguinte pensamento: Tanta frescura com a água da Cesan... menino, não bebe água da torneira que dá verme!...

Pois é...

Fabio Chagas

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Comportamento e mídia

Ultimamente tenho andado às voltas com dois - entre tantos - assuntos que pretendo fazer, se não uma ligação, pelo menos uma aproximação. Estou no final do quinto período de Comunicação Social e decidi pegar uma disciplina no curso de psicologia. Pois bem. Me matriculei em Psicologia da Personalidade I. No início achei que a disciplina era leve, a professora divertida e isso me ajudava a preencher as tardes de terça e quinta. Estudei de modo não aprofundado as várias correntes: psicanálise, behaviorismo e por aí vai.

Também iniciei, com outras quatro pessoas, nesse período, uma pesquisa que trata de mídia digital móvel. Me coube pesquisar os regimes de interação presentes na apreensão dos conteúdos jornalísticos e publicitários; como o usuário lida , ou interage, com o aparelho e com o conteúdo em si.

A certa altura, e sem o pudor dos que sabem o que estão fazendo, decidi me aventurar por um caminho que não sei onde vai dar. Decidi que vou tentar estabelecer uma relação entre a vertente comportamentalista da psicologia e essa história de apreensão de conteúdos via mídias móveis. A intenção é mostrar quanto de nossos comportamentos são condicionados pelas mensagens e mesmo pelos aparelhos que nos conectam a elas. Para isso vou me embrenhar no universo das estatísticas (muitas me foram fornecidas pela Okto) e das percepções.

Que minha orientadora me suporte (vale a ambigüidade) e que eu não enlouqueça.

Fabio Chagas

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Deixa a mídia trabalhar - parte III

Vejamos a seguinte situação: a criatura possui um sobrenome do tipo xxxxetti, xxxnaglia, tipicamente italiano. Suponha que o avô da mãe do bisavô da tia da empregada do pai desse ser, que nasceu e vive, por exemplo, em Santa Teresa - ES, Brasil, tenha nascido, vivido e morrido na Itália. Quantas gerações se foram? Guerras, revoltas, tempestades e dores de barriga provocaram alterações culturais profundas nesse povo. Hoje o nosso ítalo-brasileiro, morador de Santa Teresa inventa de reivindicar o reconhecimento de sua cidadania italiana.
Eu pergunto: Ele é italiano?
E respondo: Não. Mas é bonito ser europeu, ou ao menos descendente.
Engraçado. Nunca vi ninguém reivindicando o reconhecimento de uma cidadania africana.
Bom, deixa pra lá. O fato é que, se o índio for considerado índio de verdade mesmo sem penas e tintas pelo corpo, isso configura uma grande inconveniência para o branco. Ao passo que, se este puder transitar livremente pelo primeiro mundo, valendo-se de sua distante descendência, tá tudo certo.
Mas o assunto era a mídia e a influência dela na formação e transformação da nossa identidade. E mesmo parecendo que a coisa desandou, acredito que continuamos no caminho. Claro, mesmo os índios são hoje modificados pela mídia. Há casos de antropólogos que ensinaram a povos de tribos distantes uma da outra a utilizar equipamentos de filmagem com o intuito de registrarem suas práticas culturais e trocarem entre si esse vídeos como forma de mútuo aprendizado e registro para futuras gerações.
Volto, então à minha defesa da mídia. Há possibilidades de utilização positiva do universo midiático, com valorização da cultura, transmissão de conhecimentos e difusão de temas educativos. Não devemos ser inocentes a ponto de achar que a mídia destina-se somente a isso. Como já foi citado anteriormente, a mídia se vale das características e elementos da pós-modernidade para se fortalecer e difundir os valores daqueles que detêm o poder da comunicação. Cabe a cada um, discernir o que é viável, ou conveniente; reagir ou não; enfim, fazer as escolhas que julgar mais acertadas e arcar com as conseqüências decorrentes.
Faça a mídia sua parte. Fazemos nós a nossa.
Fabio Chagas

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Deixa a mídia trabalhar - parte II

Não pretendo elevar a mídia à condição de deusa, santa, nem mesmo de sacerdotisa. Mas a sua influência beira o sagrado e, como este, ocupa espaço e transforma pessoas, sim. Ela segue a lógica da Indústria Cultural (Adorno), se aproveitando das manifestações culturais, dando uma nova roupagem e transformando-as em produtos prontos para o consumo. Nesse sentido, duas obras servem de luz para essa questão: A Sociedade do Espetáculo (Debord) e A sociedade do Consumo (Baudrillard).
Mas falemos de identidade. O que é essa entidade psico-filosófica?
No mais baixo vôo da razão eu diria que identidade é aquilo que se é. É o ser como ele é ou está sendo e tendendo a ser. O problema é que - concordando com outros que já se disseram isto antes de mim - o ser é aquilo que ele sabe que é e os outros também sabem; é aquilo que ele sabe que é e os outros não sabem; é aquilo que os outros sabem que ele é e ele não sabe; e é aquilo que ele não sabe que é e os outros também não sabem. É aí que entra a história da imagem. Como nossa identidade é um fazer sem fim, a cada momento fornecemos informações que falam de nós, mas que não são, necessariamente, fixas.
Resumindo: nós somos o que somos (identidade) e o que mostramos (imagem). Mas sempre queremos nos mostrar bem. Quando nos faltam referências a mídia tem muitas a oferecer.
Volta pra cá: O espetáculo.
Vale mais a cópia, o parecer ser, o parecer ter. Mesmo que o consumo não seja possível.
Prazer em conhecer. Pós-modernidade.
E já que o meio-mídia é a mensagem e ajuda a construir a imagem, interferindo diretamente na identidade, é de se esperar que pessoas e grupos deixem sua história ser perpassada por novos elementos que surgem ao longo de sua história. Por exemplo, viviam cá os índios, nus, caçando, pescando e cheios de colares e cocares. Chegaram os europeus e inventaram de torná-los devotos de Nossa Senhora, cobriram-lhes as vergonhas e lhes fizeram conhecer o paraíso, ou em outras palavras, mataram os caras. Hoje, há quem diga que os índios deixaram de andar nus, caçar, pescar e usar os penduricalhos, então já não são índios: "vamos tomar-lhes as terras!".É uma postura engraçada. Haveriam os índios de continuar exclusivamente dentro do mato? Ora, séculos ficaram para trás. E a Revolução Industrial, a Revolução tecno-científica, a Revolução de sei lá o quê...?
Povos ao redor do mundo foram influenciados e modificados culturalmente devido às inovações na política, economia, tecnologia e medicina, por exemplo. Por que haveria de ser diferente com nossos índios? Fomos até as aldeias, levamos bugingangas e doenças, coisas e mais coisas. É natural que houvesse um choque cultural, uma mudança de postura, identidade e imagem. Os índios, de fato, não se parecem com os que Caminha encontrou nos idos tempos da descoberta. Mas isso não dá a ninguém o direito de retirar-lhes o direito à terra.
Na verdade, o que ocorre é que há envolvido aí o fator (in)conveniência.
... Continua.
Fabio Chagas