quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Em terra de cego...


_ Meus senhoras e minhas senhoras, um minuto de sua atenção. Não estou aqui pra roubar. Só quero trabalhar. Minha mãe está doente, o meu pai está doente, minha irmã está doente e a essas horas eu também já devo estar doente...
Todo mundo já deve ter passado por situação parecida. Tirando o mau gosto da brincadeira, é comum vermos, nos ônibus cidade afora, pessoas vendendo toda a sorte de objetos e produtos: paçoca, jujuba, mariola, canetas Manassés, cartões, pirulitos, balas, queijo, algodão doce, picolé e, pasmem, até passaporte para o Reino de Deus.
Olhando com um pouco mais de atenção para essa situação percebi três coisas que merecem destaque. Uma delas foi que o povo anda sofrendo os males de um desenvolvimento que muitos não conseguem acompanhar e, por isso, caem na informalidade, ou mesmo no crime. Outra é que muitos vendedores não sabem como atrair a atenção e o envolvimento da clientela. Uma terceira observação foi que, definitivamente, a beleza, ou algum outro fator estimulador pode fazer a diferença entre a adesão ou não do público.
Vamos aos fatos. Alguns exemplos vão ilustrar o que digo.
1)Vendedor de balas. Aproximadamente trinta e cinco anos.
Atuação preferencial no trecho Vitória Apart Hospital (Serra, ES) – Praça de Goiabeiras (Vitória – ES).
Esse rapaz afirma que precisa tomar uma injeção de um medicamento caro, toda segunda-feira – isso mesmo; toda segunda, ele diz que precisa fazer uso do medicamento às segundas-feiras; vende doces; normalmente, sem muito sucesso. Me pergunto o que acontece aí. Existe um sistema de saúde que, minimamente, funciona. O SUS não oferta esse medicamento? Não sei qual... Mas o rapaz também não ajuda. Faz um apelo tão exagerado que não comove ninguém. Antes incomoda.
2) Cego. Meia idade.
Acompanhado por um amigo meio manco.
Atuação eventual na Av. N. S. da Penha (Vitória,ES).
A justificativa dada nesse caso foi a de que o homem era cego e, portanto, inválido. Nesse evento, semana passada, acho que só eu tirei uns quinze centavos do bolso e ofereci ao homem. Ele desceu reclamando e dizendo que ninguém tinha nem umas moedinhas pra dar... Só pra lembrar: era cego.
Essa semana, não tive como não lembrar dos casos anteriores. Estava num ônibus e, de repente entra um menino de aproximadamente treze anos, moreno, com roupas simples mas limpas, cabelos penteados, dentes brancos e carregando na cara os olhos mais intrigantemente verdes que eu já havia visto, ou que eu nunca havia visto. Estava vendendo jujuba. Num cartãozinho azul, plastificado um texto pequeno pedia ajuda a alguém de bom coração e deixava uma benção de Deus.
O menino passava pelo corredor do ônibus pedindo licença e agradecendo. Em pouco tempo, já estava com a caixinha de jujubas vazia e as mãozinhas cheias de dinheiro. Havia quem desse o dinheiro e nem ficasse com as balas.
Ele não precisou falar nada, pensei. Tá vendendo com o olho.
Em meio à admiração geral, por causa do olho do menino, comprei a jujuba também.
Fabio Chagas

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

"É Tropa de Elite?" - parte II

Depois de um certo tempo as coisas vão entrando no eixo, ou desandam de vez. Mas parece que, no caso da minha experiência lá em São Pedro, a tendência é continuar melhorando... as crianças já mostram ter uma certa confiança em mim. Acho que é pela minha insistência.

Outro dia percebi que a molecada estava demorando a aparecer. Sai procurando pela escola e achei minhas crianças na oficina de cartão. No melhor sentido da expressão, entrei sem pedir licença. Me joguei no meio dos cartões e comecei a falar sobre os filmes que pretendia exibir. Aos poucos eles foram aderindo e fomos para a sala de cinema.

Exibi dois curtas e começamos a discutir sobre liberdade, responsabilidade, companheirismo e respeito mútuo - esse último assunto eu insisto em puxar todo encontro, pela característica do relacionamento das crianças, às vezes ofensivo.

Bom, fomos conversando sobre os temas propostos. A certa altura um menino me pergunta:

- E a múmia?

Que múmia? Não tinha múmia em nehum dos filmes... Foi aquele rebuliço. Todos riram e o menino ficou sem graça. Procurei saber de que múmia ele estava falando e ele respondeu que havia se lembrado, naquele momento, de um filme a que havia assistido... Parei tudo.

Comecei pela múmia... As múmias, blá, blá, blá... os faraós... o Egito... as maldições... aquela velha história.

Silêncio total. Quando acabei de falar sobre as múmias, começaram a perguntar sobre um monte de coisas e a oficina de cinema na escola/direitos humanos virou uma conversa sobre conhecimentos gerais.

Ah! Ainda não falei pra eles, mas não vai dar pra exibir Tropa de Elite lá.

Fabio Chagas

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"É Tropa de Elite?" - parte I

Mês passado comecei minha oficina Cinema na Escola, pelo Programa Escola Aberta, da SECAD (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade), do MEC. A oficina acontece aos sábados numa escola na região de São Pedro, em Vitória. É uma iniciativa que tem por finalidade tratar de temas referentes a Direitos Humanos. Para isso essa oficina se utiliza do audiovisual.

Bom, meu primeiro contato com a escola foi um desastre. Chovia diluvialmente. Cheguei às oito da manhã e escola só abriu às nove e meia. A escola não disponibilizou nem TV nem DVD, não divulgou a oficina, a coordenadora que me receberia sequer sabia da minha existência e, conclusão, eu voltei pra casa frustrado.

Pensei em não voltar mais. Mas ia deixar tudo de lado? E o material que fiquei dias preparando?...

No sábado seguinte lá estava eu de novo. Cheguei às nove. Vi que havia um cartaz divulgando a oficina. A coordenadora me recebeu e me levou até uma sala com TV e DVD. Estamos indo bem, pensei.

Mal entrei, um batalhão de crianças barulhentas passou me atropelando e se amontoou na frente da TV gritando "É Tropa de Elite?"... Pensei cá com meus botões: de onde veio a idéia de que seria exibido tal filme?... Talvez seja o que eles têm, em suas pequenas (infantis) cabeças, de mais representativo do cinema... Havia na sala umas vinte e cinco crianças. Quando eu disse que não iria exibir Tropa de Elite, uns dez pares de olhos melancólicos resistiram à tentação de vazar dali. Terminei o encontro com oito crianças...

Continua...

Fabio Chagas

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Quem somos nós?

Outro dia assisti ao filme What bleep we know?... com aquela mania brasileira de mudar o nome dos filmes, Quem somos nós?
O filme é inquietante e há quem diga que não passa de um amontoado de loucuras. O fato é que tive que escrever algo sobre ele para uma disciplina (psicologia da personalidade; mas faço comunicação social). E deu no seguinte:

O filme Quem somos nós? traz uma questão que, se não nos tira o sono, pelo menos nos obriga a sair de nosso mundinho autista e olhar melhor ao redor; nos põe frente a uma série de questões que normalmente não deixamos pertencer nem ao universo de nossas discussões mais esclarecidas nem ao das menos valiosas.
Pela abordagem do filme, a física quântica é apresentada como a física das possibilidades. E há que se ter muita fé para acreditar que existe a possibilidade de as coisas serem múltiplas mesmo se apresentando, aparentemente, únicas. Deus, por exemplo. É único, dizem. Mas suas manifestações se dão em diversas entidades. A natureza reflete Deus - ou é Ele - e, no ímpeto de suas forças, mostra-se venerável. As energias e o acaso refletem Deus. Até o homem reflete Deus, visto que é(?) sua imagem e semelhança...
Mas onde ficam as possibilidades?
No campo da percepção isso é mais fácil de ser entendido. Ao olharmos para uma determinada coisa, nossos órgãos sensoriais captam uma imagem que é codificada, decodificada e transvalorada pelo nosso cérebro, com seu conjunto de memórias de experiências passadas. Ocorre uma ressignificação da coisa, quase sempre determinada pela massificação promovida por uma superestrutura, uma espécie de Matrix, que se faz presente em todos os setores. Nesse contexto, as coisas recebem toda uma carga de sentidos que são atribuídos pelos olhos do observador, que se projeta no objeto de observação.
Toda realidade, sob o ponto de vista do observador é, para ele uma verdade: a realidade. No entanto, esta vai além do que se percebe, ou do que se vê. Como o filme mostra, uma bola é mais vazio do que matéria e, portanto, ela também é o que não é. Assim, é questionável o que seria um ser, um eu, um self ideal. Existe um self ideal? É possível atingir esse estágio? Que relação teria com o mundo real? E o que é o mundo real? Talvez seja o que todos podem ver. Talvez seja o que só eu posso ver. Talvez seja o que nem eu nem ninguém pode ver.
Acredito que há momentos em que a (ir)realidade nos salta aos olhos, ou aos outros sentidos; sentidos mesmo que não se limitam aos cinco já ampla e vulgarmente estudados. Quando isso ocorre, abrem-se as brechas do incomum. O desigual, o anormal se manifesta. Daí para a loucura (ou genialidade?), factual ou suposta, é um pulo.

Fabio Chagas

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Dá-me de beber

"Traga-me um copo d'água
Tenho sede
E essa sede pode me matar..."
(Tenho sede - Gilberto Gil)


Já não é viável sequer cantar essa música do nosso ministro da cultura. Com todo esse problema da água mineral contaminada aqui no Espírito Santo, parece que não só a sede mas também a água "[...] pode me matar [...]".

Primeiro foi o leite, que além de todos os reais benefícios que todos já conhecemos passou também a ser ofertado nas versões desinfetante altamente corrosivo e descolorante capilar, com o princípio ativo dos compostos NaOH (soda cáustica) e H2O2 (água oxigenada), respectivamente. Fora a brincadeira, de muito mau gosto diga-se de passagem, o fato é que um dos alimentos tidos como indispensáveis na alimentação estaria sendo adulterado com o intuito de aumentar o prazo de validade - caso do leite distribuído em embalagens tipo longa vida (caixinha).

A soda cáustica, se ingerida pode causar desde irritações até perfurações na mucosa intestinal. A água oxigenada pode provocar gastrite, entre outras coisas. Mais do que uma irresponsabilidade, essa atitude de algumas cooperativas produtoras de leite configura um crime. Em face disso muitas pessoas foram presas e muitos produtos foram apreendidos.

Agora a onda é com a água. Quando todo mundo achava que água mineral era o supra-sumo da pureza a vigilância sanitária jogou um balde de água fria - livre de coliformes fecais, espero - sobre nossas cabeças. Estamos consumindo água contaminada por coliformes e por uma bactéria que pode provocar dor de barriga. Já são 12 (A Gazeta) ou 13 (A Tribuna) marcas capixabas de água mineral proibidas de serem comercializadas no estado.

Ontem, Dulce Rosa Gustavo, minha vizinha, acompanhou, bem de perto, agentes da vigilância sanitária de Fundão, quando estes recolhiam embalagens, ainda lacradas, das casas dos consumidores. Segundo ela, Luiz, o entregador de água e gás, também teria participado da operação. Ele devolvia aos clientes o valor pago pela água.

Vamos ver onde tudo isso vai dar. Com certeza, os preços vão subir. É claro. Não tem água boa aqui. Os comerciante terão que comprar fora do estado. Isso eleva o custo do produto. Conclusão: vai doer no bolso.

Só me surge agora o seguinte pensamento: Tanta frescura com a água da Cesan... menino, não bebe água da torneira que dá verme!...

Pois é...

Fabio Chagas

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Comportamento e mídia

Ultimamente tenho andado às voltas com dois - entre tantos - assuntos que pretendo fazer, se não uma ligação, pelo menos uma aproximação. Estou no final do quinto período de Comunicação Social e decidi pegar uma disciplina no curso de psicologia. Pois bem. Me matriculei em Psicologia da Personalidade I. No início achei que a disciplina era leve, a professora divertida e isso me ajudava a preencher as tardes de terça e quinta. Estudei de modo não aprofundado as várias correntes: psicanálise, behaviorismo e por aí vai.

Também iniciei, com outras quatro pessoas, nesse período, uma pesquisa que trata de mídia digital móvel. Me coube pesquisar os regimes de interação presentes na apreensão dos conteúdos jornalísticos e publicitários; como o usuário lida , ou interage, com o aparelho e com o conteúdo em si.

A certa altura, e sem o pudor dos que sabem o que estão fazendo, decidi me aventurar por um caminho que não sei onde vai dar. Decidi que vou tentar estabelecer uma relação entre a vertente comportamentalista da psicologia e essa história de apreensão de conteúdos via mídias móveis. A intenção é mostrar quanto de nossos comportamentos são condicionados pelas mensagens e mesmo pelos aparelhos que nos conectam a elas. Para isso vou me embrenhar no universo das estatísticas (muitas me foram fornecidas pela Okto) e das percepções.

Que minha orientadora me suporte (vale a ambigüidade) e que eu não enlouqueça.

Fabio Chagas

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Deixa a mídia trabalhar - parte III

Vejamos a seguinte situação: a criatura possui um sobrenome do tipo xxxxetti, xxxnaglia, tipicamente italiano. Suponha que o avô da mãe do bisavô da tia da empregada do pai desse ser, que nasceu e vive, por exemplo, em Santa Teresa - ES, Brasil, tenha nascido, vivido e morrido na Itália. Quantas gerações se foram? Guerras, revoltas, tempestades e dores de barriga provocaram alterações culturais profundas nesse povo. Hoje o nosso ítalo-brasileiro, morador de Santa Teresa inventa de reivindicar o reconhecimento de sua cidadania italiana.
Eu pergunto: Ele é italiano?
E respondo: Não. Mas é bonito ser europeu, ou ao menos descendente.
Engraçado. Nunca vi ninguém reivindicando o reconhecimento de uma cidadania africana.
Bom, deixa pra lá. O fato é que, se o índio for considerado índio de verdade mesmo sem penas e tintas pelo corpo, isso configura uma grande inconveniência para o branco. Ao passo que, se este puder transitar livremente pelo primeiro mundo, valendo-se de sua distante descendência, tá tudo certo.
Mas o assunto era a mídia e a influência dela na formação e transformação da nossa identidade. E mesmo parecendo que a coisa desandou, acredito que continuamos no caminho. Claro, mesmo os índios são hoje modificados pela mídia. Há casos de antropólogos que ensinaram a povos de tribos distantes uma da outra a utilizar equipamentos de filmagem com o intuito de registrarem suas práticas culturais e trocarem entre si esse vídeos como forma de mútuo aprendizado e registro para futuras gerações.
Volto, então à minha defesa da mídia. Há possibilidades de utilização positiva do universo midiático, com valorização da cultura, transmissão de conhecimentos e difusão de temas educativos. Não devemos ser inocentes a ponto de achar que a mídia destina-se somente a isso. Como já foi citado anteriormente, a mídia se vale das características e elementos da pós-modernidade para se fortalecer e difundir os valores daqueles que detêm o poder da comunicação. Cabe a cada um, discernir o que é viável, ou conveniente; reagir ou não; enfim, fazer as escolhas que julgar mais acertadas e arcar com as conseqüências decorrentes.
Faça a mídia sua parte. Fazemos nós a nossa.
Fabio Chagas

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Deixa a mídia trabalhar - parte II

Não pretendo elevar a mídia à condição de deusa, santa, nem mesmo de sacerdotisa. Mas a sua influência beira o sagrado e, como este, ocupa espaço e transforma pessoas, sim. Ela segue a lógica da Indústria Cultural (Adorno), se aproveitando das manifestações culturais, dando uma nova roupagem e transformando-as em produtos prontos para o consumo. Nesse sentido, duas obras servem de luz para essa questão: A Sociedade do Espetáculo (Debord) e A sociedade do Consumo (Baudrillard).
Mas falemos de identidade. O que é essa entidade psico-filosófica?
No mais baixo vôo da razão eu diria que identidade é aquilo que se é. É o ser como ele é ou está sendo e tendendo a ser. O problema é que - concordando com outros que já se disseram isto antes de mim - o ser é aquilo que ele sabe que é e os outros também sabem; é aquilo que ele sabe que é e os outros não sabem; é aquilo que os outros sabem que ele é e ele não sabe; e é aquilo que ele não sabe que é e os outros também não sabem. É aí que entra a história da imagem. Como nossa identidade é um fazer sem fim, a cada momento fornecemos informações que falam de nós, mas que não são, necessariamente, fixas.
Resumindo: nós somos o que somos (identidade) e o que mostramos (imagem). Mas sempre queremos nos mostrar bem. Quando nos faltam referências a mídia tem muitas a oferecer.
Volta pra cá: O espetáculo.
Vale mais a cópia, o parecer ser, o parecer ter. Mesmo que o consumo não seja possível.
Prazer em conhecer. Pós-modernidade.
E já que o meio-mídia é a mensagem e ajuda a construir a imagem, interferindo diretamente na identidade, é de se esperar que pessoas e grupos deixem sua história ser perpassada por novos elementos que surgem ao longo de sua história. Por exemplo, viviam cá os índios, nus, caçando, pescando e cheios de colares e cocares. Chegaram os europeus e inventaram de torná-los devotos de Nossa Senhora, cobriram-lhes as vergonhas e lhes fizeram conhecer o paraíso, ou em outras palavras, mataram os caras. Hoje, há quem diga que os índios deixaram de andar nus, caçar, pescar e usar os penduricalhos, então já não são índios: "vamos tomar-lhes as terras!".É uma postura engraçada. Haveriam os índios de continuar exclusivamente dentro do mato? Ora, séculos ficaram para trás. E a Revolução Industrial, a Revolução tecno-científica, a Revolução de sei lá o quê...?
Povos ao redor do mundo foram influenciados e modificados culturalmente devido às inovações na política, economia, tecnologia e medicina, por exemplo. Por que haveria de ser diferente com nossos índios? Fomos até as aldeias, levamos bugingangas e doenças, coisas e mais coisas. É natural que houvesse um choque cultural, uma mudança de postura, identidade e imagem. Os índios, de fato, não se parecem com os que Caminha encontrou nos idos tempos da descoberta. Mas isso não dá a ninguém o direito de retirar-lhes o direito à terra.
Na verdade, o que ocorre é que há envolvido aí o fator (in)conveniência.
... Continua.
Fabio Chagas

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Deixa a mídia trabalhar - parte I

O Seminário "Políticas públicas de acesso e permanência no ensino superior" promovido pelo Programa Conexões de Saberes da Ufes apresentou, na manhã de ontem, uma série de artigos produzidos pelos bolsistas. Me chamou muita atenção o que abordou a temática da identidade.

O assunto foi tratado de maneira muito oportuna e seguiu por um caminho que muito me agrada: a discussão sobre a influência da mídia na mudança de identidade de pessoas e grupos dos mais diversos.
Pra começar, quero deixar clara a minha posição de defesa da mídia - como se ela precisasse disso! - acredito que ela cumpre seu papel. Satanizá-la significa, no mímino, assumir uma total falta de consciência dos papéis sociais que cada um pode e/ou deve desempenhar.

Ah! Antes que eu me esqueça, ... : a palavra "mídia" ainda vai aparecer muitas vezes nesse texto. E não estou falando da mídia como canal, meio de propagação ou difusão de informações. Falo da mídia como fábrica de significados e ressignificações; como instituição; quase uma divindade.

Calma, senhores. A divindade a que me refiro é a super presencialidade que ela manifesta: você está em casa e ali está o rádio, a TV, o telefone; você sai e lá está o celular, o MP3, ...4, o jornal na banca ou com o cara que sentou ao seu lado no banco do ônibus; é o outdoor, o busdoor, o etcdoor. Não como suporte de mensagem, mas como a mensagem em si. A mídia é a mensagem (O meio é a mensagem. - McLuhan). Ela é o estilo da mensagem, a proposta, a intenção; A imagem viva do poder. No entanto, insisto, cumpre seu papel. Cabe a você decidir pela resistência (até que ponto?) ou não.

...Continua.
Fabio Chagas

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Cadê o preto que estava aqui?

Hoje entrevistei Alex Rosa de Andrade, diretor do vídeo Você viu algum negro por aí?. A matéria vai ser publicada no jornal do Programa Conexões de Saberes, da UFES. Mas nossa conversa foi tão interessante que resolvi esticar um pouco mais o tema.

Em seu documentário, Alex joga a pergunta-título, sem preparar seus entrevistados. As respostas, quase sempre negativas, mostram dois cenários: um de pouca participação do negro nos espaços privilegiados e outro em que os próprios negros não se reconhecem como tal.

Bom, a idéia, aqui, é apenas propor uma reflexão - a matéria sobre o vídeo será postada na íntegra posteriormente.

A questão agora é a seguinte: Por que os negros não se assumem negros?

A resposta parece óbvia. Há um histórico de exclusão caindo constantemente sobre os ombros negros da maior parte da população brasileira. Assim, é preciso enfrentar os padrões, os estereótipos. Mas isso acontece com o esclarecimento, com educação. E educação é um artigo de luxo no Brasil.

Me espantei, dia desses, com o comentário de um amigo: "não tem negros nas escolas". Ele havia participado do registro de dados do censo escolar, que segue o critério de auto-declaração de raça/cor do IBGE. Segundo esse amigo, curiosamente, os alunos em sua maioria, quase totalidade, se auto-declararam brancos. Até os mais pretos.

Fiquei intrigado. E preocupado.

Vejo discussões sobre cotas para negros em universidades e me pergunto onde vão dar se essa história do censo escolar não for um caso isolado. Talvez se chegue à conclusão que realmente não existem negros nas escolas.

E aí? O que vem depois?

a) Não precisamos da política de cotas nas universidades pois os pretos não estudam
b) Precisamos de cotas do ensino fundamental até a universidade

Ou nenhuma das respostas anteriores?

Mais do que discutir a questão das cotas é preciso tratar a ferida do preconceito. Somos todos iguais numa coisa: somos diferentes. E a diferença é que dá o tempero das nossas relações.


Fabio Chagas

terça-feira, 23 de outubro de 2007

No dia em que se faz trinta anos

Tudo começa assim:

Você acorda, levanta, olha para os lados e... e percebe que tá tudo exatamente do mesmo jeito.

É verdade. As pessoas me perguntam como é fazer trinta anos.

Sei lá. É assim. Como fazer dez, vinte ou vinte e cinco...

Não me incomoda, pelo contrário.

A estranheza, que mereceu tempo pra escrever sobre o tema, se deve ao fato de eu estar cheio de gente mais nova por perto, sobretudo na faculdade. Meus colegas têm em média vinte anos.

Mas acredito que me misturo bem. Afinal, o que são dez anos a mais?

A diferença entre mim e eles é que conheço alguns brinquedos Estrela de que eles nunca ouviram falar e pude assistir à versão do sítio do picapau amarelo anterior à de agora.

No mais, uma imagem que tenho forte na memória é a da multidão desolada, chorando a morte do presidente Trancredo Neves, que não chegou a assumir. José Sarney, seu vice, ocupou a presidência.

Anos mais tarde, pra ser exato, em 1989, Fernando Collor seria eleito presidente. Mas depois o caçador de marajás foi caçado e cassado.

Caras pintadas. Fora Collor. Impeachment nele. Collor fora.

Também pintei minha cara e fui pra rua, caminhando e cantando e seguindo...

Eu era engajado. Mas como tudo na vida, isso também passou.

De lá pra cá, o que ficou foi uma certa impaciência com algumas coisas. E aí me valho dos trinta anos e dos oitenta e tantos quilos pra dizer que não tenho mais peso e idade pra suportar certas bandidagens, canalhices ou, se me permitem a baixeza, certas filhodaputices. Mas isso é outro assunto.

E por agora acho que já tá de bom tamanho.

Fabio Chagas

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Editorial

Outro dia eu estava em casa, vendo, da minha janela, o rio que passa nos fundos do meu quintal. Então me brotou um pensamento meio metafórico: rio, água, passando, ali, todo dia - quanta coisa passa diante dos nossos olhos!
Comparando muito mal, parece o amontoado de informações que recebemos todos os dias e às vezes ficamos ali, parados, sem fazer nada. Não comentamos, não questionamos. Só vemos, ouvimos...
Dessa inquietação nasceu a idéia desse blog, que é falar de tudo o que for possível. Cultura, política, economia, esportes, futilidades, sociedade. Tudo.

Você vai ver.
Fabio Chagas