Não pretendo elevar a mídia à condição de deusa, santa, nem mesmo de sacerdotisa. Mas a sua influência beira o sagrado e, como este, ocupa espaço e transforma pessoas, sim. Ela segue a lógica da Indústria Cultural (Adorno), se aproveitando das manifestações culturais, dando uma nova roupagem e transformando-as em produtos prontos para o consumo. Nesse sentido, duas obras servem de luz para essa questão: A Sociedade do Espetáculo (Debord) e A sociedade do Consumo (Baudrillard).
Mas falemos de identidade. O que é essa entidade psico-filosófica?
No mais baixo vôo da razão eu diria que identidade é aquilo que se é. É o ser como ele é ou está sendo e tendendo a ser. O problema é que - concordando com outros que já se disseram isto antes de mim - o ser é aquilo que ele sabe que é e os outros também sabem; é aquilo que ele sabe que é e os outros não sabem; é aquilo que os outros sabem que ele é e ele não sabe; e é aquilo que ele não sabe que é e os outros também não sabem. É aí que entra a história da imagem. Como nossa identidade é um fazer sem fim, a cada momento fornecemos informações que falam de nós, mas que não são, necessariamente, fixas.
Resumindo: nós somos o que somos (identidade) e o que mostramos (imagem). Mas sempre queremos nos mostrar bem. Quando nos faltam referências a mídia tem muitas a oferecer.
Volta pra cá: O espetáculo.
Vale mais a cópia, o parecer ser, o parecer ter. Mesmo que o consumo não seja possível.
Prazer em conhecer. Pós-modernidade .
E já que o meio-mídia é a mensagem e ajuda a construir a imagem, interferindo diretamente na identidade, é de se esperar que pessoas e grupos deixem sua história ser perpassada por novos elementos que surgem ao longo de sua história. Por exemplo, viviam cá os índios, nus, caçando, pescando e cheios de colares e cocares. Chegaram os europeus e inventaram de torná-los devotos de Nossa Senhora, cobriram-lhes as vergonhas e lhes fizeram conhecer o paraíso, ou em outras palavras, mataram os caras. Hoje, há quem diga que os índios deixaram de andar nus, caçar, pescar e usar os penduricalhos, então já não são índios: "vamos tomar-lhes as terras!".É uma postura engraçada. Haveriam os índios de continuar exclusivamente dentro do mato? Ora, séculos ficaram para trás. E a Revolução Industrial, a Revolução tecno-científica, a Revolução de sei lá o quê...?
Povos ao redor do mundo foram influenciados e modificados culturalmente devido às inovações na política, economia, tecnologia e medicina, por exemplo. Por que haveria de ser diferente com nossos índios? Fomos até as aldeias, levamos bugingangas e doenças, coisas e mais coisas. É natural que houvesse um choque cultural, uma mudança de postura, identidade e imagem. Os índios, de fato, não se parecem com os que Caminha encontrou nos idos tempos da descoberta. Mas isso não dá a ninguém o direito de retirar-lhes o direito à terra.
Na verdade, o que ocorre é que há envolvido aí o fator (in)conveniência.
... Continua.
Fabio Chagas
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