Há pouco tempo participei de uma oficina de Leituração, em que praticávamos três modalidades de leitura: a sensorial, a emocional e a racional, passíveis de serem aplicadas a qualquer coisa (textos, músicas, pinturas, pessoas, lugares, instituições).
Com a leitura sensorial lemos o que os sentidos captam; cores, formas, texturas, sons, gostos, cheiros... a emocional nos leva à análise da nossa relação com o que está sendo lido e a leitura racional analisa a função pragmática da coisa lida.
Me propus a ler minha cidade. E, fora a característica extremamente racional de minha leitura, às vezes até me apresento sensorial e emocional, sem definir limites muito claros entre uma instância e outra. Mas a consideração mais importante a ser feita é a de que talvez haja um quê de equívoco na minha análise, já que hoje a cidade de Fundão - ES está distante de mim, e eu dela, apesar de continuar morando lá. Também pode ser que o distanciamento me permita alcançar um grau satisfatório de imparcialidade...
Honestamente acredito que não... Mas vamos lá.
Fundão é um lugar pequeno, com todas ou muitas das características de uma cidade tipicamente interiorana. Às vezes tem-se a impressão de que, pelo fato de ser cortada pela rodovia e pela ferrovia, a cidade é bastante movimentada. Na verdade, não passa de uma impressão. Tempos atrás, havia uma certa movimentação cultural e mesmo um dinamismo político. Hoje, no entanto, já não se sente esses ares. E a sensação de inércia se estende ainda pela economia, turismo, educação, saúde, entre outras áreas que compõem o arcabouço social do município.
As coisas ficam mais sérias se repararmos que essas características da cidade acabam se infiltrando na constituição e na formação, ou formatação, dos cidadãos. A maioria deles se permite viver apenas o que o lugar oferece, dando continuidade à inércia. Vê-se, constantemente, pessoas com grande potencial, que se perdem no sem rumo profundo, proporcionado pela realidade local. Tal desorientação, mais que nociva, é cruel, já que o contexto não apenas nega, mas tira dessas pessoas a oportunidade e a vontade de pensar e agir em favor de uma mudança pessoal e social.
Por outro lado, quase que irracionalmente, a população e mesmo alguns visitantes (que são diferentes dos turistas) encontram o afago, próprio das pequenas comunidades, com seus altos níveis de solidariedade e comprometimento com o outro; tanto que por vezes decorrem daí as intrigas, as fofocas e as conversas atravessadas indesejáveis. Em outros termos, o povo ama a cidade e a digere com todas as suas mazelas. Talvez por ignorância, pois é sabido que o esclarecimento traz consigo certos desconsertos e inquietações.
Certo mesmo é que uma cidade parada no tempo, sem promover o desenvolvimento do intelecto e das humanindades de seus cidadãos vai aos poucos construindo um labirinto em que o povo se perde e os governantes não menos. E desse jeito, como governar bem uma cidade com tanta diversidade humana e geográfica?; como atender às necessidades das três regiões - sede, Timbuí e Praia Grande - que a compõem?; ... uma cidade que tem mar, tem montanha, fábricas (poucas) e cafezais; ... uma cidade de artistas, pobres famintos e intelectuais; Difícil... Muito difícil. Mas o caminho já está aberto. A gente chega lá.
Fabio Chagas
Com a leitura sensorial lemos o que os sentidos captam; cores, formas, texturas, sons, gostos, cheiros... a emocional nos leva à análise da nossa relação com o que está sendo lido e a leitura racional analisa a função pragmática da coisa lida.
Me propus a ler minha cidade. E, fora a característica extremamente racional de minha leitura, às vezes até me apresento sensorial e emocional, sem definir limites muito claros entre uma instância e outra. Mas a consideração mais importante a ser feita é a de que talvez haja um quê de equívoco na minha análise, já que hoje a cidade de Fundão - ES está distante de mim, e eu dela, apesar de continuar morando lá. Também pode ser que o distanciamento me permita alcançar um grau satisfatório de imparcialidade...
Honestamente acredito que não... Mas vamos lá.
Fundão é um lugar pequeno, com todas ou muitas das características de uma cidade tipicamente interiorana. Às vezes tem-se a impressão de que, pelo fato de ser cortada pela rodovia e pela ferrovia, a cidade é bastante movimentada. Na verdade, não passa de uma impressão. Tempos atrás, havia uma certa movimentação cultural e mesmo um dinamismo político. Hoje, no entanto, já não se sente esses ares. E a sensação de inércia se estende ainda pela economia, turismo, educação, saúde, entre outras áreas que compõem o arcabouço social do município.
As coisas ficam mais sérias se repararmos que essas características da cidade acabam se infiltrando na constituição e na formação, ou formatação, dos cidadãos. A maioria deles se permite viver apenas o que o lugar oferece, dando continuidade à inércia. Vê-se, constantemente, pessoas com grande potencial, que se perdem no sem rumo profundo, proporcionado pela realidade local. Tal desorientação, mais que nociva, é cruel, já que o contexto não apenas nega, mas tira dessas pessoas a oportunidade e a vontade de pensar e agir em favor de uma mudança pessoal e social.
Por outro lado, quase que irracionalmente, a população e mesmo alguns visitantes (que são diferentes dos turistas) encontram o afago, próprio das pequenas comunidades, com seus altos níveis de solidariedade e comprometimento com o outro; tanto que por vezes decorrem daí as intrigas, as fofocas e as conversas atravessadas indesejáveis. Em outros termos, o povo ama a cidade e a digere com todas as suas mazelas. Talvez por ignorância, pois é sabido que o esclarecimento traz consigo certos desconsertos e inquietações.
Certo mesmo é que uma cidade parada no tempo, sem promover o desenvolvimento do intelecto e das humanindades de seus cidadãos vai aos poucos construindo um labirinto em que o povo se perde e os governantes não menos. E desse jeito, como governar bem uma cidade com tanta diversidade humana e geográfica?; como atender às necessidades das três regiões - sede, Timbuí e Praia Grande - que a compõem?; ... uma cidade que tem mar, tem montanha, fábricas (poucas) e cafezais; ... uma cidade de artistas, pobres famintos e intelectuais; Difícil... Muito difícil. Mas o caminho já está aberto. A gente chega lá.
Fabio Chagas
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