sábado, 21 de maio de 2011

Professora Amanda Gurgel

Esta semana, tive o prazer de ouvir uma das mais esclarecidas falas sobre a educação brasileira.

Em seu desabafo, durante uma audiência pública sobre o cenário da educação no Rio Grande do Norte, a professora Amanda Gurgel resume o que acontece em todo o Brasil.

Assista ao vídeo.

Nosso país, enquanto exibe o título de oitava economia do mundo, figura no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) como o 70º da lista, só ficando à frente do Cazaquistão, Equador, Rússia, Ilhas Maurício e Bósnia-Hezergóvina. Um dos indicadores que determinam o IDH é a educação.

Mas a preocupação do Brasil com a educação é mera maquiagem para agradar a organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial. Para ficar bem na foto, o governo lança campanhas como "Toda criança na escola", amarra isso ao Fome Zero, Bolsa Família e outros programas de distribuição de renda e faz de conta que a população brasileira tem acesso a educação de qualidade.

Mas veja, hoje em dia, dificilmente um aluno fica reprovado, mesmo que não tenha aprendido nada ao longo do ano. E por que não aprende? Porque faltam condições que façam com que a criança se interesse pelo estudo. Talvez não tenha uma família estruturada, passe fome em casa, sofra violências, não tenha moradia digna. Isso exige ações públicas firmes e articuladas, num contexto mais amplo.

No entanto, vamos pensar nas situações dentro da escola. Se o professor recebe um salário abaixo do piso nacional, não tem segurança, precisa trabalhar em várias escolas e em vários horários pra ter um salário um pouco melhor; se não tem material didático adequado, se as salas de aula não têm instalações decentes, se falta água, energia, ventilador, cadeira, quadro, giz e coisas do tipo, fica difícil.

Talvez tenhamos que esperar pela eleição de Cristovam Buarque...

Enquanto isso não acontece, contamos com a boa vontade de alguns profissionais da educação, gente sensível e dedicada que, ao menor sinal de interesse de um aluno, deposita toda sua esperança e se desdobra para ensinar, incentivar e apontar caminhos e opções diferentes. Mas só com boa vontade não dá.

Um bom exemplo vem do Japão que, mesmo no período feudal, antes da Restauração Meiji em 1868, já se preocupava com a educação não apenas dos senhores provinciais, mas também das outras classes sociais. Em 1872, foram fundadas escolas primárias e secundárias e, em 1886, o "Toda criança na escola" já era obrigatório, passando a ser gratuito em 1900. De lá até 1947, o ensino primário passou de três ou quatro anos para nove anos de duração e estima-se que cerca de 75% dos cidadãos que concluem o ensino médio, cursem a universidade, os cursos profissionalizantes ou outros cursos pós-secundários.

O país, depois da Segunda Guerra, quando era apenas uma pequena nação devastada, tomou medidas que o lançaram pra frente, para se tornar uma das maiores economias do planeta. No centro de seus objetivos está a formação de cidadãos conscientes e confiantes, integrantes de uma sociedade que preza pela democracia e pelos direitos humanos.

No Brasil, o que se espera  é que haja condições para tornarmos nosso ensino tão eficaz quanto o de lá. É obvio, sem nos enganarmos, pensando que questões como a intensa concorrência e a violência só acontecem por aqui. Por lá, sem dúvida, o problema também existe. Devemos olhar para fora e aprender com eles o que pode ser aplicado aqui, para resolver nossos problemas. E os problemas da educação por aqui, sem dúvida, passam pela contínua e histórica desvalorização do professor.

Fabio Chagas

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