Nas últimas duas semanas, Fundão tem sido vista pelos olhos da imprensa, de maneira muito atenta. E não é para menos.
Primeiro, uma ação policial que resultou na apreensão de veículos, armas e drogas, além da prisão de várias pessoas. Isso sem falar que, no mesmo dia, um policial foi morto na frente do filho de 14 anos, durante um assalto a um posto de combustíveis. O militar fazia segurança no mesmo posto, nas horas de folga.
Uma outra operação, desta vez envolvendo o Ministério Público (MPES) e as polícias civil e militar, teve como alvo a adminstração municipal. Cumprindo mandados de prisão, busca e apreensão, mais de 100 policiais fizeram o centro de Fundão ficar quase tão movimentado quanto nos dias de festa.
Carros, pessoas, bicicletas, motos e até carrinhos de bebê disputavam espaço no trânsito da cidade. Ruas foram interditadas, equipes de reportagem chegavam a todo momento e, aos poucos, a população ia sabendo que se tratava do maior escândalo já registrado na história do lugar: o suposto desvio de cerca de 900 mil reais, por mês, provenientes dos royalties do petróleo explorado em nosso litoral.
Metade do secretariado municipal foi preso. E sobrou até para dois vereadores e alguns funcionários do primeiro escalão. Mas não parou por aí. O prefeito e o vice podem ser afastados e outras pessoas podem ser investigadas por atos de improbidade administrativa.
Não chego a me surpreender. Também não acho que só houve coisas erradas nesta gestão.
As investigações devem continuar, os responsáveis pelo desvio de dinheiro, se houve, devem ser responsabilizados e punidos, os envolvidos em práticas ilícitas envolvendo a coisa pública devem ser igualmente cobrados por seu atos, mas não pode parar por aí.
Precisamos nos conscientizar de que o público é uma dimensão coletiva do privado. Nessa rede de interesses individuais, o organismo social público funciona como uma argamassa. Não descaracteriza as pessoas, mas enxerga todas como um grupo que, em alguma medida, possui interesses comuns. Em favor dessa unidade é que o público opera. Ou deveria.
Essa visão não vale apenas para os cidadãos que apenas usufrem dos serviços prestados pela municipalidade. Vale também, e com um peso maior, para os cidadãos que, em nome do município, prestam serviços aos demais. E recebem por este serviço. Não são voluntários. Não fazem favor.
É urgente, também, que os interessados em manter ou disputar lugares de comando, seja no poder legislativo seja no executivo, se conscientizem muito mais. Não deveriam olhar para esse escândalo apenas pelo viés da competição político-eleitoreira, mas pelos olhos da justiça. E dizem que esta é cega. Esperamos que sim. Cega com relação aos cargos, sobrenomes, poder financeiro.
Em resumo, não se trata de fazer uma caça às bruxas, nem de promover espetáculos de enforcamento em praças públicas ou queimar vivos, em grandes fogueiras, os culpados. Devemos esperar que sejam responsabilidados os responsáveis e exemplarmente punidos por seus atos. Dentro da Lei.
Mas seria muito bom se nossos políticos não ficassem apenas apontando erros, dizendo "eu falei, eu avisei". Seria muito bom se eles não utilizassem esse evento apenas para tentar manchar a reputação dos outros. O ideal seria se utilizassem isso para pensar em suas próprias fragilidades. E partissem para o trabalho.
Continua...
Fabio Chagas
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